Radio Montreal na Real

Repensando a escola. A revolução começou.

Por Rogério Tanganelli

A internet teve tanto impacto em nossa sociedade quanto os aparelhos domésticos do século passado. Alguns utensílios, modernos à época, como a máquina de lavar-roupas, reorganizaram brutalmente nossa sociedade assim como nossos smartphones nos dias de hoje. O primeiro tirou mulheres de casa e as colocou no mercado de trabalho, enquanto o segundo tem redesenhando nossa relação humana por exemplo. Nos falamos por uma tela de poucas polegadas. A ciência, aliada à tecnologia, tem transformado nossa maneira de viver, consumir e produzir. Parece bem óbvio, e quando falamos em eletrônica, robótica, numerização, inteligência artificial, somos todos apenas elogios. Mais rápidas e a um custo reduzido, a produção por máquinas colocará milhares de pessoas na fila do desemprego em pouco tempo e numa sequência exponencial. Preconização clássica de um certo barbudo, também do século passado, talvez mais velho que as máquinas de lavar, e hoje tão odiado por muitos.

Os efeitos desta atual revolução da Tecnologia da Informação tem sacudido nossas vidas. Algumas funções no mercado de trabalho começam a desaparecer. E não são só funções como caixa de supermercado. Mesmo as mais tradicionais, como advogados, engenheiros, contadores, jornalistas e até médicos não estão livres do impacto. E o mundo cada vez mais global, apresenta sintomas em tempo e forma distintos, concretizando assim distopias. Para muitas famílias, a tal máquina de lavar ainda é um milagre da tecnologia inalcancável, enquanto outras sociedades estão em consultas com psicolólogos porque o wi-fi não funciona corretamente na ponte área NY-Washington.

Meios de produção alterados, novas substâncias ingeridas em nossa dieta e nossos corpos já não são mais os mesmos. Doenças antes desconhecidas deram as caras. Quem mudou também foram nossas almas e mentes. Além dos milhares de produtos plastificados nas prateleiras, a revolução nos trouxe igualmente desafios. Em algumas décadas nossas crianças estarão inseridas em mundo totalmente modificado, na mesma proporção de nossas sementes em campos agrícolas.

Quem sabe faz a revolução, não espera acontecer.

Algumas perguntas já se levantam. Com os meios de produção na mão de máquinas, nossa equação mão de obra/qualificação x salário/meio de vida terá que ser redefinida. A geração de hoje precisa de instrumentos para enfrentar esta nova realidade onde máquinas assumem papéis centrais. Neste sentido, a educação passa a não ser uma escolha, mas sim um requisito de sobrevivência. Além das habilidades clássicas, como a matemáticam, ciência, tecnologia e lógica, crianças precisam desenvolver qualidades fundamentais do “savoir-faire”. Em outras palavras, dominar a ciência da relação humana, tão fragilizada em tempos de esfriamento e mecanização. Será preciso controlar o desejo da alta performance com a necessidade de guardar a tradição e o valor comum, este muito mais complexo que as tabelas de medição de produção geradas pelo excel. A desvalorização dos professores, a carência de mão-de-obra, a falta de confiança da profissão, a mercantilização da educação, os cortes orçamentários, o sucateamento são apenas alguns dos erros a serem corrigidos urgentemente, seja aqui no Québec em menor escala ou em países sub-desenvolvidos.

No Québec, onde muitas nossas crianças brasileiras estão inseridas, um projeto passou um pouco despercebido semana passada, durante o anúncio do orçamento da província para os próximos anos em educação. É o Lab-École, que tem como objetivo repensar a escola atual principalmente sobre os seguintes aspectos, o caminho acadêmico das crianças, a avaliação dos professores, a arquitetura da escola e o menu proposto nas cantinas. À frente do projeto estão três persoanlidades da sociedade Quebequense, o cozinheiro Ricardo Larrivéé, o arquiteto Pierre Thibault e o tri-atleta Pierre Lavoie. Professores, alunos, designers e programadores de toda a província farão parte do projeto. A reformulação é urgente. Para mim, a performance e a competição são dois bons motores da pesquisa e do resultado, mas num sistema que não forma colaboradores o fracasso é certo. Por mais louco que isso possa parecer, uma escola precisa de ideologia e proposta. Em outras palavras, filosia, arte e calor humano.

A revolução da tecnologia já começou a educação ainda está admirada.

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Sobre o autor
Rogério Tanganelli

Rogério Tanganelli

Rogério Tanganelli é jornalista e conselheiro Internacional em admissões no Collège CDI


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