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Fora Temer em Québécois. Entenda o que é a “Gentrification” e os ataques em Montréal.

Por Rogério Tanganelli

Recentemente meu amigo Sandro Monteiro causou um certo rebuliço na comunidade brasileira nas redes sociais  ao publicar um texto onde ele criticava uma pichação, na famosa Place des Arts, local onde acontece os principais espetáculos da cidade. Como mostra a foto, alguém pichou por lá em francês um “Fora Temer”. leia aqui.

Muitas associações foram feitas. Sandro, assim como muita gente, pensou tratar-se de um brasileiro o autor do protesto. Não se sabe. E para mim aqui em particular não vem ao caso. Outra questão levantada foi o limite da manifestação. E é exatamente aqui que quero aproveitar o gancho para falar sobre uma série de manifestações que estão ocorrendo em Montréal há alguns anos. É um movimento que pode ser chamado de “Fora Ricos”. E eles fazem muito mais do que pichar.

Há dois dias incendiários quebraram uma vitrine de um restaurante na rua Masson, no bairro de Rosemont e jogaram um cocktail Molotov lá dentro. Isso mesmo, não foi grafite, foi fogo, incêndio criminoso. Segundo o jornal Métro, a polícia acredita que os protagonistas cometeram um ato contre “l’embourgeoisement”. Na tradução livre, um fora burguês.

Se tu meter no google a palavra “gentrification” mais “montreal” tu vai entender o fenômeno que a maioria desconhece. O anti-embourgeoisement. E eu explico em poucas palavras.  Você tem um bairro com milhares de moradores que estão lá há anos. O mercado imobiliário começa a reformar a área e os preços dos imóveis começam a subir. Uma nova população, com mais dinheiro, passa a ganhar vida. Mercados e serviços ficam mais caros e organismos sociais e habitações populares desaparecem. Os mais pobres que moram na região não suportam o novo estilo de vida, pois não possuem meios para isso, e acabam indo embora. Vendem seus apartamentos para novas empresas que reformam e vendem mais caro.

A discussão é longa e você pode pesquisar sobre o assunto na internet. O tem é extenso e acredite, o movimento existe há mais de décadas como você pode ver no link da Radio Canada que deixo abaixo. Dois bairros clássicos da cidade estão sofrendo com estas ações dos manifestantes depois que passaram por uma série de renovações de imóveis e comércio. São eles Hochelaga-Maisonneuve, que ganhou o nome de HOMA e St. Henri. Os dois bairros, lindos diga-se de passagem, são conhecidos por serem “quartiers” de operários no passado.

De fevereiro deste ano para cá a tensão aumentou. Em St-Henri, uma série de vitrines de comércios considerados caros sofreram ataques. Policiais em uma das manifestações em Hochelaga foram atacados com coquetéis molotov. Os manifestantes picham as vitrines e deixam recados contra os ricos. Segundo eles, a subida dos preços deixa os mais pobres em um verdadeiro deserto alimentar sem opções de compra.

O objetivo deste site, que está próximo de completar 3 anos, é compartilhar a boa informação e que seja preciosa para a comunidade brasileira. Acho importante dizer isso porque infelizmente nem só de boas notíciais vivemos, mas mesmo as ruins, como essas, são importantes para o entendimento desta sociedade “québécoise”, que tem um código a ser decifrado por nós, imigrantes.

 

Reportagens sobre os ataques em St-Henri e a chamada “gentrification”

Merchants ask for city to step in, end attacks targeting new businesses

Boshra: Don't make our local businesses scapegoats for gentrification

http://ici.radio-canada.ca/nouvelle/787916/hochelaga-maisonneuve-gentrification-embourgeoisement-echec-mixite-sociale-plateau

 

 


Sobre o autor
Rogério Tanganelli

Rogério Tanganelli

Rogério Tanganelli é jornalista e conselheiro Internacional em admissões no Collège CDI


Comentários 2

  1. montrealnareal

    Olá Michele! Bem interessante o ponto levantado por você. Por isso tentei ser ao máximo isento no texto. Não dúvido nem um segundo que estes movimentos possam ser incentivados por máfias e no meio dessa gente tem muitas pessoas que caíram ali por ideologia. Particularmente não acredito que essa seja a melhor forma para o diálogo. Apesar de que já vi entrevistas de organismos comunitários da região de Saint Henri dizendo que com empresários não há diálogo. É isso. De toda forma a intenção é levantar o debate e informar. Obrigado pela sua participação.

  2. Michele

    Ola Rogerio nao pesquisei o fenomeno, mas sou ex policial e ex adv. no Brasil. De acordo com meus estudantes policiais aqui em Montréal o fenomeno vêm de mafias da construção para exatamente a renovação de predios e comercios. Estes comercios mais caros estao em pontos extrategicos as vezes com contratos a longo prazo… e uma das causas para a quebra do aluguel sao atos como estes oque envolve tambem muitos casos de seguro! Pois 90% das causas de incendio sao pagos pelas seguradoras… Acho um sujeito muito delicado para dar nome aos bois, mas prefiro ainda uma fonte mais segura de informação.
    O sujeito é interessante!

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