Opinião

Recomeçar é uma benção, mas pode se tornar maldição

Por Marcio Ribeiro

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la, teremos, ficado, para sempre, à margem de nós mesmos” – Fernando Teixeira de Andrade.

Ou como bem canta Beth Carvalho no samba  espetacular de Délcio Carvalho :

“Acreditar…….eu não
Recomeçar…….jamais
A vida foi………em frente
E você simplesmente
Não viu que ficou pra trás”

O ser humano foi programado para acreditar que na estrada da vida ele não tem escolha e deve seguir apenas uma rota: nascer, crescer, estabelecer família, buscar um bom emprego, estabilidade financeira, ver a família prosperar e morrer com a sensação do dever cumprido. Mas quem disse que não pode haver atalho nesse caminho? Mesmo que ele seja mais cheio de curvas, mais íngreme, mais difícil, mas que pretende levar, no fim das contas, ao mesmo destino daqueles que seguiram pelo primeiro trajeto: a felicidade. Todos queremos ser felizes, mas cada um tem a sua maneira de chegar lá. E você sabe como se chama esse atalho: Recomeço. 

Recomeço. Está aí uma palavra complicada. Para uns, uma oportunidade única, um privilégio. Para outros uma maldição, um obstáculo quase intransponível. Quem está estagnado no meio do caminho, quer recomeçar. Quem está recomeçando tem medo e às vezes se congela diante do desafio. Quem está certo? Ambos. Ou talvez nenhum. É uma questão de escolha e ponto de vista. 

Imagina que hoje você está caminhando tranquilo pela rua e encontra uma lâmpada mágica e de repente um gênio te concede um desejo. Mas esse gênio é chato e ele já decidiu qual será oo desejo, só te resta aceitar ou não. Ele te concederia a possibilidade de recomeçar sua vida. Um novo lugar para morar, um novo emprego, talvez até numa nova área, falar um novo idioma, conhecer outras pessoas, novas culturas, um novo jeito de viver. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. Tentador né? Mas com essa mágica mudança, viriam todos os desafios que deixar uma vida para trás requer. Começar algo literalmente do zero. Como se quase tudo o que você viveu até agora valesse nada, ou muito pouco.

E aí, topa?

Você descobre a importância da primavera e suas cores

Aposto que a maioria das pessoas responderia que sim. A rotina do dia-a-dia nos faz o tempo todo querer mudar. E, de maneira geral, essa mudança sempre tem que ser radical. Nunca é gradativa, em pequenos hábitos ou sutis mudanças de rotina. Tem que ser para valer. Cortar o cabelo, largar o emprego,  emagrecer não sei quanto quilos, mudar de cidade… de cidade não, já não é  mais suficiente. De país! E porque não? Mas é tão difícil! Eu não falo outro idioma, já estou velho, minha vida já está encaminhada…e todos aquelas desculpas razões que nos impedem de tentar…e então, voltamos à nossa tediosa rotina como se despois de uma certa etapa da vida não tivéssemos mais o direito de escolheer que caminho ela deve tomar. Já escolheram por nós.

Mas tem aqueles que conseguem quebrar esse gelo e enxergar que a vida é muito curta para ser pequena. E que da mesma maneira que nascemos e morremos, podemos renascer e nos reiventar sempre que acharmos necessário. São os tais que “pensam fora da caixa”, os malucos belezas, aqueles que remaram contra a maré e fizeram tudo aquilo que gostaríamos de ter feito. Sem saber que era impossível, foram lá e fizeram. Mudaram tudo. Deixaram para trás uma vida que já não lhes cabia e foram desbravar um mundo novo. Esses podem ter feito isso tudo sem sair do lugar, ou sendo logo radical através de um processo de imigração.

E passa a valorizar o verão!

Hoje (12/04), completo dois anos do meu segundo aniversário. Aquele que todo  imigrante faz questão de lembrar. Quando empacotamos a vida e resumimos anos e anos de histórias em duas malas rumo ao sonho de morar fora do Brasil. E o recomeço é o assunto que mais tem martelado na minha cabeça. Quem está de fora pensa: “nossa que sorte! Ele pode recomeçar a vida num lugar bacana, mais próspero, com menos violência, com mais respeito ao próximo e, olhem só, tem até neve! Quem me dera poder recomeçar a essa altura da vida”. Por outro lado, quem está do lado de cá, muitas vezes (diria eu que em sua maioria) olha para trás e vê o quanto sacrificou pelo caminho em busca desse recomeço. O quanto tem que abdicar de orgulho próprio, história de vida, reputação, status, pré-conceitos, conceitos e pós-conceitos, como é difícil conseguir forças em certos momentos para se adaptar a uma realidade que sempre esteve tão distante da sua. A insuportável distância de amigos, família. Ausência em momentos importantes como nascimentos e mortes, e por aí vai…

Quem está certo?

Como diz o filósofo e poeta espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio ” a beleza está nos olhos de quem a vê”.

E eu acrescentaria, a felicidade também. Ser feliz é uma decisão. É uma maneira de olhar a vida. Não depende de fatores externos. Nem de dificuldades ou facilidades encontradas nessa rota. Se você decidir ser feliz, não existe o que te faça não o ser. Se não fosse assim, pessoas que passam por dificuldades financeiras extremas, vivem em condições precárias, ou tem histórias de vida barra pesada, já nasceriam condenadas a serem infelizes pelo resto de suas vidas. Mas o que pode impedir essa condenação é exatamente sua capacidade de levantar, sacodir a poeira, dar a volta por cima e…recomeçar.

Então, cabe a você que resolveu deixar seu país em busca dessa tal felicidade, passar a enxergar a possibilidade do recomeço como algo maravilhoso, que te permite ser quem você quiser, trabalhar no que quiser, conhecer pessoas interessantes, culturas tão inacreditáveis que você custa a acreditar que existem. E que já tem a seu favor toda a bagagem da experiência de já ter começado uma nova vida.  Em contato com muitos imigrantes, por causa da natureza do Montreal na Real, me deparo com os recém-chegados. Empolgados, fotografando tudo, registrando tudo, como se quisessem comer tudo o que está a sua volta, querendo compartilhar aquela alegria que se multiplica a cada segundo, com cada descoberta. Como se fossem crianças descobrindo o mundo. Já reparou que crianças se deslumbram com a menor das descobertas? Quando foi que perdemos essa capacidade?

Descobrindo que existe uma época linda chamada outono

Descobre que aquela época linda chamada outono existe não só nos livros da escola

Passado um tempo, essa mesma empolgação dá um giro de 180 graus e, em via de regra,  se transforma numa frustração profunda. Saudade da família, dos amigos, do carnaval, do boteco da esquina, até daquele chefe mala…é..ele não era tão mala assim. Uma falta incrível daquele emprego entediante que te fazia querer morrer sempre que tocava a música no Fantástico no domingo à noite. Mas que pagava as tuas contas e que depois de tanto tempo ali, já não te tirava da zona de conforto. Por que isso acontece? Porque deixamos a rotina nos dominar. E a rotina nos faz perder o deslubramento e passar a enxergar a vida com seus tons de cinza. Perdemos a empolgação infantil porque o novo parou de ser novo. E passamos a nos entender já dentro de uma certa zona de conforto, que ao mesmo tempo é confrontada com a diária luta por não pertencer mais àquela vida que ficou para trás, nem ser totalmente parte dessa nova realidade. Com raízes ainda frágeis  no novo lar.

E o que nos resta fazer quando nos damos conta disso? Isso mesmo, recomeçar.

Abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. Fazer a  travessia para não ficarmos para sempre à margem de nós mesmos….

Merci mon cher Québec!

E aí você se dá conta que pode ser feliz abaixo de zero

E se dá conta que pode ser feliz mesmo abaixo de zero

 

 

Texto sobre os primeiros seis meses em Montreal

Texto sobre o primeiro ano de vida nova

 

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Sobre o autor
Marcio Ribeiro

Marcio Ribeiro

Comunicador, cineasta, empreendedor, imigrante, apaixonado por Montreal.


Comentários 6

  1. Elton

    Parabéns pelo texto. Muito bem escrito e retrata bem tudo que se passa na cabeça de quem quer recomeçar. Isso nos faz refletir mais a respeito de quem somos e de onde queremos chegar.

  2. montrealnareal

    Exato. Por isso falo de recomeço e não em imigração, como destino final. Podemos recomeçar toda hora. Quando quisermos. Sem desculpas. É só querer, programar e respirar fundo!!

  3. Julian Romero

    Ótimo texto, patrão, acredito que levou um tempo e ainda rolou uns (bons) pensamentos saudosistas. Só enfatizo que a solução “recomeçar” não é final: ainda temos uma boa segurança como imigrantes em retornar ao país natal caso aconteça algo grave, ou pior, não aconteça nada! Ou, porquê não, continuar a jornada em outro país, em outra província… Dificuldades encontraremos por toda a vida, mas a cada dia encontramos novas maneiras de contorná-las, e isso para mim é bem viver, manter a mente ocupada e a família segura.

  4. Daniel

    Post perfeito. Parabéns! Começo meu recomeço dia 09 de junho, e acredito que viverei todos estes momentos descritos. Abraços

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