Dicas | Imigração

10 hábitos que adquiri em Québec

Por Julian Romero

Já disseram muitas vezes por aí: imigrar é recomeçar. Reformulo: imigrar é aprender tudo de novo.

Sabe aqueles hábitos que você tem e que passam despercebidos porque eles acabam se tornando parte da sua rotina cotidiana no Brasil? Sim, tínhamos vários hábitos e será até assunto para um próximo post, mas para exemplificar, tínhamos o hábito de pedir comida por telefone. No Canadá, e mais específico aqui na província de Québec, fizemos uso do serviço de delivery… umas 4 vezes. Em 5 anos.

Aprendemos muita coisa diariamente neste novo país, e pensando em coisas rotineiras que eu definitivamente nunca fiz no Brasil – ou fiz muito, mas muito pouco – cheguei a uma pequena lista de 10 itens dos hábitos que agora fazem parte do cotidiano de minha família.

1

10-habitos-pneusAcostumar com o frio. Brincadeira! Isso não é nem um hábito, isso é basicamente o oxigênio canadense, sem isso você não vive. O primeiro item é sobre quando você é proprietário de um carro: trocar pneus a cada 6 meses. No Brasil, você troca pneu talvez uma vez a cada 2 anos, mas é um pneu. Aqui você troca os 4 porque simplesmente tem que mudar o tipo do pneu, do chamado de inverno para o 4 estações/verão, e vice-versa. O hábito é tão comum entre os canadenses que você encontra um tipo inusitado de serviço em lojas de troca de pneu: o armazenamento do seu jogo de pneus na própria loja. Uma espécie de storage, porque eles sabem e você sabe que daqui a seis meses precisará usar os serviços deles de novo. Trocar os 4 pneus (ou 4 rodas+pneus, o que é mais caro) e alinhá-los custa para mim $65. Obviamente muita gente opta por uma opção mais em conta, e isso é parte do segundo hábito…

2

10-habitos-toolsConserte, arrume, construa e troque você mesmo. O sucesso financeiro de mega depósitos de construção como Home Depot, Rona e BMR não é por acaso. Como devem saber, serviços profissionais como marceneiro, eletricista e encanador são considerados caros e fazem parte meio que de um serviço de empreiteira, quando existem muitas coisas a se fazer numa casa, por exemplo. No caso do carro, existem opções, mas ainda assim vejo muitos proprietários trocarem eles mesmos as rodas do carro. Por isso eles mantém 2 jogos de rodas e pneus, e não só 2 jogos de pneus, fica mais fácil de trocar. E precisa de ferramenta? Aquele kit de parafusadeira/furadeira da Black & Decker que você tem no Brasil torna-se brinquedo de criança perto dos kits semi-profissionais que vendem por aqui e que facilmente você encontra em qualquer garage sale da cidade. O hábito de cuide-você-mesmo-de-seu-patrimônio é um hábito difícil para quem não tem habilidade – como eu – em matéria de trocar cano ou mexer com a calefação da casa. Por isso sempre optei por locais novos ou que tem boa manutenção, funcionando como uma espécie de seguro-problema da casa.

3

everyday productsTá com fome? Talvez o hábito que mais dá problema com os recém-chegados ao Canadá é a questão alimentar, de preparar sua própria comida. Comer fora todo dia é caro. Ah sim, você é solteiro, não é um grande problema. Mas família não pode viver assim. E você cria um hábito ao mesmo tempo econômico e saudável: as refeições – a janta e o café da manhã – passam a ser em conjunto, a comida é preparada do seu jeito e depois de 3 anos penando, você meio que desenvolveu uma capacidade técnica de não queimar arroz e nem torrar carne no forno. Este hábito é um prazer que revivemos  dos nossos tempos de criança, quando a sua família sentava-se à mesa para jantar. É uma boa coisa da cultura local que absorvemos, curtimos e incentivamos, com assuntos diversos passam entre pratos e panelas e no fim, claro, você é quem tem que lavar a louça. Ou a máquina de lavar, que é o nosso caso.

4

10-habitos-trashCuidar do seu lixo. Parece ser uma coisa tão idiota que você pode nem contar como um hábito. Mas eu conto, porque quase nunca levei lixo à rua, morava em apartamento no Brasil e havia a mordomia de que o zelador passava recolhendo o lixo de porta em porta do prédio. Aqui você adquire o hábito de separar o lixo entre reciclado e orgânico ainda dentro de casa, às vezes compactar as caixas de papelão, levar o lixo no “latão” azul (reciclado) ou preto (ôrganico), e em dias determinados na sua cidade, deixar esses latões na calçada beirando a rua para que o caminhão de lixo colete-os. E depois de coletados, retornar os latões para a área apropriada. Isso quando não existe um alerta de ventos fortes na cidade e os latões resolvem perambular pela rua – cheios ou vazios. Deixar o latão na rua é passível de multa pela prefeitura. No subúrbio de Montreal, ainda fazemos uma gentileza de recolher os latões das senhoras vizinhas, que por sua vez… Não nos ajudam porque acreditam que “cada um deve fazer a sua parte”. Até agradecem, mas nunca disseram para não recolher o latão por elas. Mas é um hábito que você desenvolveu e não quer repetir o erro cometido no Brasil, onde cada um olha para seu umbigo…

5

10-habitos-dirtybootsDeixe seu sapato na porta. Ah, aqueles filmes japoneses, com toda aquela educação onde o visitante tira o sapato antes de entrar na casa do outro… É um tipo de hábito que existe na América do Norte, mas que no Brasil não vemos facilmente. E até notamos que uma coisa está ligada a outra: é claro, quem é que limpa a casa depois que os seus convidados entraram com aqueles sapatos cheio de neve suja? O hábito de andar descalço em casa ou de simplesmente retirar o sapato/bota ao entrar na casa de alguém (ou mesmo numa empresa ou consultório) é obviamente para evitar que a sujeira se espalhe pelo local. E com neve, a coisa fica pior. Mas toda casa tem seu próprio local para deixar botas e sapatos, que geralmente é onde você deixa os casacos também. E o hábito estende-se para o verão, com seus tênis de corrida. O engraçado é que no verão, como acostumamos de andar de chinelo, acabamos por mantê-los mesmo assim quando entramos em casa, considerando que os chinelos não estão sujos…

6

10-habitos-laver-mainsLavar as mãos. Você já reparou em quantas vezes você lava as suas mãos por dia no Brasil? Olha que o número pode se repetir para muita gente que se mudou para o Canadá, e que ainda não criou esse hábito, digamos, medicinal. Entrou no hospital? Álcool em gel. Entrou no consultório? Álcool em gel. Entrou no dentista? Lave as mãos. Está entrando na piscina? Tome uma ducha. O hábito de lavar as mãos está intimamente relacionado ao fato de que as doenças de inverno – gripe por exemplo – são transmitidas muito facilmente e que o maior meio de contato com a doença são as mãos. Acostumei-me com o hábito de lavar a mão 7, 8 vezes ao dia, aleatoriamente ou antes das refeições. Pode ser coincidência, mas ao ter esse hábito reduzi bastante os problemas de saúde na família.

7

Ah sim, a saúde canadense e seu maravilhoso sistema universal gratuito… Ôpa, peraí, escrevi maravilhoso? Há controvérsias. Um hábito que nunca tive no Brasil são as consultas médicas. 10-habitos-doctorVocê, mulher, muito provavelmente tem consultas médicas semestrais, mas para um homem brasileiro exames de rotina não fazem exatamente parte de uma lista de prioridades. E queira você concordar ou não, o médico de família canadense é o responsável por incluir este hábito na sua vida. Penamos para ter um desses, levamos um ano praticamente e demos sorte, porque a lista de espera era longa e há um déficit muito grande de médicos de família em Québec. Mas ao conseguir ser aceito por um, portas se abrem e geralmente estas portas são centros de saúde (CLSC em Québec) e, claro, os hospitais. E, por prevenção e para conhecer o seu estágio de saúde inicial, os médicos de família lhe pedem muitos exames. E consultas a cada 2-3 meses são comuns. Eles acompanham sua rotina, querem saber como se exercita e como se alimenta. Para mulheres grávidas, consultas quando necessário e acompanhamento pós-parto constante (uma segurança e certo alívio para as mamães). Esse hábito de maratona clínica tem um objetivo: prevenir. Como o sistema de saúde é público, gasta-se muito menos prevenindo doenças do que tratando-as tardiamente.

8

10-habitos-trilangueTrilinguismo. Este estranho hábito está até camuflado neste texto. São palavras que, por fraqueza da sua mente, não acham tradução e numa conversa oral você acaba se exprimindo ou em francês, ou em inglês ou em português. É muito comum isso acontecer em roda de amigos, em college ou universidade, ou simplesmente tentando ser compreendido pelo atendente do Tim Hortons. Você, imigrante, deveria merecer um prêmio, pois aqui você é um indivíduo trilíngue, e quase “quadrilíngue” se considerar que você tem uma certa compreensão do espanhol graças à América do Sul. Mas para mim, é um hábito que chega a atrapalhar uma conversa formal, porque você acaba não se policiando para pronunciar a palavra correta na língua correta, e isso meu amigo, custa a muita gente um emprego…

9

10-habitos-escolaParticipar da comunidade e escola. Nossa filha cresceu aqui, já tem mais tempo de Canadá do que de Brasil e foi alfabetizada completamente aqui, em escola pública, de uma cidadezinha de 20 mil habitantes. Então o hábito escolar nunca existiu no Brasil, então acredito que este item pode ser válido apenas para aqueles com filhos que nasceram aqui. Frequentar a escola de seus filhos torna-se um pequeno hábito que tem consequências comunitárias. Vira e mexe você recebe comunicados, e-mails, de atividades sociais na escola, corrida de rua, campeonato de hóquei, feira da família… Ainda não dá para ir em todas as atividades, mas é curioso notar que a escola chama pelos pais para fazer parte, e isso reflete na comunidade. Voluntariado e doações tornam-se hábitos, mantendo-se na cabeça que o que você está fazendo é importante e faz parte de um processo que seus filhos estão usufruindo. Reunião com a professora da escola então, são 2 por ano e com o único objetivo de explicar aos pais como os filhos estão progredindo na aula, ou se é preciso alguma “intervenção” em casa. Este hábito me dá um conforto meio que espiritual que poucas coisas conseguem: sim, eu faço parte de uma comunidade.

10

10-habitos-timeE por último, um hábito que tenta tirar a uma mancha do currículo do brasileiro: está nevando? Saia mais cedo. O hábito de chegar em encontros no horário é um desafio que muitos imigrantes – não só brasileiros, latinos em geral – não conseguem adquirir. E se você teve oportunidade de fazer uma francisação, vai compreender o que digo: mesmo numa simples aula, os imigrantes chegam atrasados. E não é qualquer atraso, é coisa de 10-15 minutos numa aula que dura 1h30… Não chega nem a ser habitual checar o tempo antes de sair de casa, é meio obrigatório. Se houver neve, prepare-se porque durante uns bons 10-15 minutos você colocará sua roupa de inverno, bota, gorro, cachecol, e se seu carro está estacionado na rua, terá que remover a neve antes, ou se está caminhando para o ponto de ônibus, aperte o passo porque no inverno caminhamos mais lentamente. E como bem dizem, os canadenses não são tolerantes com atrasos. E depois de algum tempo, habituado, você também não será tolerante com o atraso dos outros.

A lista poderia continuar, com coisas desprezíveis a coisas extremamente importantes, mas acredito que essa ferramente incrível chamada Internet poderá lhe fornecer muitas outras listas como essa, diferentes, detalhadas ou ainda bizarras.

E deixo aqui minha forte recomendação a todos aqueles que imigram ou estão no processo de imigração: o hábito de aprender uma coisa nova todo dia.

E você, qual é seu hábito que adquiriu apenas quando imigrou?

Textos relacionados

A incrível transformação do Estádio Olímpico duran... https://www.youtube.com/watch?v=FJfTwUcTcMQ Já dissemos aqui no Montreal na Real que a fama de elefante branco do Stade Olympique está ficando cada vez mais injustificada. O vídeo feito pela administração do local é uma prova disso. Em apenas um mês, o estádio abrigou dois jogos de baseball, um de futebol, um evento de Monster Truck e uma feira ...
Como lidar com o québécois sem se cansar? Ela te lançou um sorriso, mas não quer dizer que esteja interessada. Teu colega québécois recusa tua ajuda sempre que você oferece. Recebeu um presente... seria de bom tom agradecer com outro do mesmo valor. São esses códigos sociais e muito outros que o autor Dany Laferrière te ajuda a decifrar em seu último livro, Tout ce qu'on ne te dira pas, Mo...
#3 – Transporte : Metrô e ônibus em Montreal... Nesta reportagem você vai conhecer um pouco mais sobre o transporte público de Montreal. As vantagens  e desvantagens de cada sistema. As facilidades e dificuldades de andar por essa cidade. Vale a pena fazer a carta Opus, o bilhete de acesso em suas viagens? Tudo isso e muito mais no Montreal na Real. Então não perca tempo e embarque conosco .......
#4 – Quer conhecer a estação de esqui mais p... Mais uma dica quente do Montreal na Real! O inverno em Montreal é cheio de atrações e atividades esportivas. Uma das mais requisitadas é o esqui. E Saint Bruno é a montanha mais próxima de Montreal. Saiba qual a estrutura da estação, tamanho da pista, preços e todos os detalhes para te animar a praticar um dos esportes mais divertidos do inve...

Sobre o autor
Julian Romero

Julian Romero

Facebook Twitter

Julian Romero é jornalista formado na UEL, em Londrina/PR, e imigrou para Québec em 2011. Trabalha com consultoria, análise e desenvolvimento de websistemas e é especialista em natação competitiva, além de molhar a sunga de vez em quando nas piscina canadenses.


Comentários 4

  1. montrealnareal

    Fabiana, o título do texto e a maneira com que ele foi escrito já mostram que não houve generalização. Pelo contrário. São relatos pessoais do autor. São od 10 hábitos que ele adquiriu, que muita gentee se identifica, outros não. A ideia é promover um debate. Obriigado pelo seu feedback

  2. Max

    Ta muito bom, adoro ver isso.
    Mas para um Quebéco, é um poco engracado!

    O Brasileiro que chega dum pais mais pobre, que esta chegando aqui para ter melhor vida…

    Y o pobrezinho tem que lavar sua ropa, mexer com o lixo e preparar sua comida!!
    Ce ve que sao os ricos da classe media alta que podem vir por aqui, e tem que se acostumar com o nivel de clase meia bem diferente.

    Aqui so os super ricos sao tratados assim como reyes!
    Me parece que esa clase meia no Brasil tem um nivel de vida muito alto e que tem muita injusticia.

    Falo isso, e ja morei com familias brasileiras assim, com a faxinheira, a casa protegida e os filhos em escolas privadas..

    Bem differente de aqui e verdade tem que se acostumar! Mas vamos falar verdade, é problema de ricos e ninhum quebeco vai chorar com isso!!!

  3. Marcia

    Gostei bastante do seu texto mas minha experiencia aqui tem algumas diferenças.
    Em relação a saude, por exemplo, levei um ano pra conseguir um medico de familia e mais um pra convence-lo a me fazer um exame preventivo de cancer. Voce podera se perguntar: o que? Convencer o medico??? Sim, porque ele me cobrava $100 por um exame que supostamente deve ser gratuito (moro em Montreal). Minha opçao era procurar uma outra clinica que fizesse de graça mas como eu tinha medico de familia, ninguem me aceitava. Esse ano meu medico mudou de endereço. Continua cobrando $100 e a outra opçao foi eu pagar $25 pra eles “enviarem” a lamina para um hospital publico. Paguei.
    Quanto aos varios exames que eles pediram pra voce, isso não acontece comigo. Tenho 52anos, pre menopausa e uma cirurgia bariatrica. Eu deveria fazer exames regulares no minimo anualmente por causa da absorçao de vitaminas e ferro mas ele não pede de jeito nenhum. E eu nem posso fazer por mim mesma ja que preciso do pedido de exame do medico. Então pra mim, a experiencia no item saude não esta sendo positiva.
    Quanto ao habito de tirar os sapatos e lavar as mãos, eu ja os tinha no Brasil então não sei dizer se as outras pessoas não fazem isso tambem.
    E pontualidade (ou a falta dela) sempre me incomodou. Chegar atrasado é falta de educação pra mim. Ser gentil, ajudar vizinhos, tambem ja faziam parte da minha rotina. Acho que é por isso que me sinto tão bem aqui. As coisas funcionam e a maioria das pessoas tem habitos e principios como os meus.
    Pra citar o que aprendi aqui: ver a previsão do tempo antes de sair e jamais subestimar o frio. Aprendi na marra depois de quase ficar hipotermica por duas vezes.

  4. Fabiana

    Talvez o 3 e o 4 sejam experiências mais pessoais suas. Na região da Serra Gaúcha, da onde eu venho, temos o costume de cozinhar e comer em casa. Pedir tele-entrega é algo raro e almoçar fora só se a pessoa realmente não tem tempo para voltar para casa. Levar o lixo é um pouco relativo; para quem mora em casa isso é normal. E nem todos os prédios tem esse serviço do zelador passar para recolher teu lixo.
    Lavar/higienizar as mãos também é relativo. Por esses motivos, acho meio complicado fazer generalizações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.