Textos | Vida no Canadá

Montreal, a cidade da indústria de games

Por Rany Ferraz

Para quem é da área de TI (Tecnologia da Informação) a província de Québec é um excelente lugar para conseguir emprego. Para quem quer trabalhar com jogos digitais também. Montreal é o quinto maior centro de desenvolvimento de jogos do mundo. Só perde para Tóquio, Londres, São Francisco e Austin. Essa semana, inclusive, a ministra de imigração da província, Kathleen Weil, anunciou mudanças no processo de imigração a partir do ano que vem e quem é da área de jogos deverá ter prioridade devido à falta de mão de obra especializada em Québec.

A província possui isenções e incentivos fiscais que levaram grandes empresas e empresas independentes a abrirem as suas portas ao longo dos anos. Tudo começou em 1996 quando Quebec ofereceu créditos fiscais às empresas multimídias. Em 2013 havia mais de 100 empresas que trabalham na indústria de games e áreas afins, e mais de 10 mil trabalhadores. As isenções sobre os desenvolvimentos dos jogos chegam a 37,5% dos custos de trabalho. Esse valor pode aumentar ainda mais 7,5% se os games forem desenvolvidos em francês. Só para ter uma ideia em 2014 os jogos de Assassin’s Creed e Far Cry 4 geraram vendas de U$ 1,15 bilhões. Sim, BILHÕES.

Os governos das cidades de Quebec, Toronto, Vancouver e Edmonton também recebem investimentos e são considerados polos para indústria de game.

Se você deseja trabalhar como artista, programador, game designer, entre outras áreas, e até mesmo arranjar algum freela como tester, talvez Montreal seja a cidade ideal. Grandes empresas como Ubisoft, Electronic Arts, Eidos Montreal, Bioware, Warner Bros e, recentemente, a Bethesda abriram suas filias. Já foram produzidos ou estão em produção vários jogos das franquias Assassin’s Creed, Far Cry, Mass Effect e Deus Ex:Human Revolution, Child of Light, Thief, Batman Arkham Origins, entre outros. Os indies também têm vez em Montréal. Estúdios como Thunder Lotus Games, Compulsion Games e Minority desenvolveram jogos como Jotun, Contrast e Papa & Yo, respectivamente. Só lembrando que geralmente é exigido o domínio da língua francesa e inglesa. Se você quer seguir carreira na área de jogos talvez Montreal seja a cidade ideal para você.

 

12825265_1050893118314369_1728948475_nO mineiro João Paulo Silva chegou ao Canadá em 2012 com sua esposa e dois gatos e trabalha como programador na Ubisoft Montreal desde 2015. Ele nos contou um pouco sobre sua experiência nessa área em Montreal.

– Como é a experiência de trabalhar como programador em Montreal?

Observo que em Montreal o mercado de trabalho em informática costuma ser interessante para imigrantes com experiência na área, pois encontramos aqui muitas empresas e ofertas de empregos, além de não existirem ordens profissionais ou outras burocracias. Contudo, arrumar o primeiro emprego costuma ser uma tarefa desafiadora, pois as empresas valorizam experiências de trabalho em cargos similares, consultam referências pessoais e indicações de redes de contatos, além de esperarem conhecimentos intermediários de inglês e francês.

Felizmente, estou muito contente com o emprego que possuo hoje; trabalho numa equipe com pessoas bacanas de diversas origens, as ferramentas que usamos (computadores e programas) são atualizadas e a empresa procura oferecer muitos benefícios aos empregados: horários flexíveis, formações internas, plano de saúde complementar… Existem também problemas, como prazos apertados e “horas extras voluntárias”; é preciso ter persistência e motivação para encontrar uma empresa ou um cargo onde você se sentirá mais satisfeito.

 

– Existe alguma diferença em trabalhar nessa área entre Montreal e o Brasil?

Observo tantas diferenças que nem vou conseguir enumerar tudo! 🙂 Vou começar com alguns exemplos de questões mais objetivas: aqui não tem décimo terceiro salário, mas pode existir participação nos lucros, feriados são escassos e férias de um mês são um verdadeiro luxo. As diferenças culturais no trabalho são meu assunto favorito, é preciso aprender a trabalhar com colegas bem diferentes. As pessoas costumam ser mais discretas, fazem poucas perguntas sobre sua vida particular e fofocas ou piadinhas com colegas são quase inexistentes. Para mim, a diversidade cultural é super interessante no ambiente de trabalho: na minha equipe somos quase todos de origens diferentes, quando chego no escritório de manhã, adoro dar “bom dia” aos colegas em várias línguas (francês, inglês, espanhol e até mesmo português). Quanto ao trabalho, sinto que a mentalidade nas empresas é realmente alcançar objetivos, não de encontrar amigos no escritório. Os prazos devem ser seriamente respeitados, as reuniões são curtas e objetivas e costumam começar e também terminar no horário combinado. Sinto também que aprendi aqui um conceito diferente de trabalho em equipe: não significa que vamos trabalhar juntos nas mesmas tarefas, trabalho em equipe aqui significa que você é responsável por algumas tarefas e a equipe inteira vai contar com os bons resultados do seu trabalho. É bastante trabalho, mas considero menos estressante que no Brasil. Nas duas empresas onde trabalhei aqui, o ambiente de trabalho era tranquilo e tínhamos “happy hour” no escritório pago pela empresa. É lógico, são apenas opiniões minhas, outras pessoas podem discordar.

 

– O que levou você querer trabalhar como programador nas terras geladas?

Eu trabalhava no Brasil com jogos digitais no meio acadêmico e o Canadá pareceu uma oportunidade de ingressar nessa indústria. Como existem muitos candidatos querendo entrar em empresas de jogos, primeiro obtive um diploma na área e experiência canadense em outra empresa. Mas minha motivação principal para vir não foi profissional, foi realmente a procura da tão mencionada “qualidade de vida”. Estou muito satisfeito, porque felizmente vivo numa cidade encantadora, onde me sinto seguro e não tenho mais todo aquele stress cotidiano: para dar um exemplo, meu trajeto “casa trabalho” demora apenas 30 minutos, mesmo pegando todo dia metrô e ônibus para me locomover.

 

Confira a lista de empresas de games em Montreal aqui: http://www.mtlgs.ca/studios/

Fonte: Investissement Québec

 

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Sobre o autor
Rany Ferraz

Rany Ferraz

Jornalista, pós-graduada em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais, estudante de Jogos Digitais, sonha com o dia que vai andar novamente pelas ruas de Montreal como residente permanente.


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