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O impacto de voltar ao Brasil como visitante

Por Julian Romero

Já li muitas histórias de pessoas que largaram tudo no Brasil e vieram para o Canadá, e o que vocês, leitores, leem mais pela internet, inclusive aqui no Montreal na Real, são relatos de brasileiros que são encantados pela cultura canadense/quebequense, que filmam, escrevem, fotografam e divulgam o que encontram em terras geladas no Grande Norte. E também tem o lado negro da experiência: aqueles que vieram, ficaram, não gostaram ou simplesmente detestaram, e retornaram ao país. E acredite, não voltaram falando boas coisas do Canadá.
Mas e aqueles que estão com um pé lá e outro aqui, aqueles cujo trabalho, estudo ou até mesmo estilo de vida consegue lhes proporcionar ao menos uma viagem ao Brasil por ano?


Rumo ao sexto ano em terras quebequenses, posso afirmar que convivo com o melhor dos dois mundos. Trabalho ainda para o Brasil, mas vivo em Québec.
E em toda viagem ao Brasil, o retorno ao Canadá torna-se mais do que um retorno à casa: vira um atestado de que nossa família não combina com a cultura brasileira. O impacto começa com o aeroporto: o vultoso Pierre-Elliott-Trudeau tem altas taxas de estacionamento, poucos serviços e opções de alimentação pelo tamanho que é o aeroporto, mas chega-se no Brasil e descobre-se que o Santos Dumont, no centro do Rio de Janeiro, sequer consegue manter o sistema de ar-condicionado ligado, trocado por gigantescos aparelhos de ventilação em pleno calor carioca de 40 graus. Chegando ao Brasil, seja pelo Galeão, seja por Guarulhos, a irritação em pegar malas talvez não é nem pela quantidade, mas sim pelo péssimo planejamento de espaço e esteiras que os dois aeroportos tem. Empurra-empurra e, pacientemente, você consegue tirar sua mala da pequena esteira que, por vezes, também trava pelo excesso de peso que tem em cima dela.
Em se tratando de infra-estrutura, o impacto é visual e espacial. No Brasil, continental por dimensão, as grandes infra-estruturas parecem que seguem uma dimensão subvalorizada, nunca esperando crescimento ou evolução. E quando acontece, como foi o caso de Viracopos, é mal feito. Ainda sob o tema aeroporto, há muita controvérsia em querer afirmar que isso é coisa de brasileiro, mas o avião acabou de pousar e ainda está taxiando quando forma-se a fila do corredor do avião. Exagero, claro, em se tratando de voos internacionais, mas uma ponte aérea confirma: falta educação em pensar no próximo. Aquela pessoa que está nas últimas fileiras que levantou-se correndo para sair rápido, fica de pé no corredor e não cede lugar para ninguém, nem para se levantar e pegar a bagagem de mão, nem para passar na frente.
Aliás, passar na frente é um impacto que você está “mal” acostumado aqui no Canadá. Socialmente você espera que a pessoa próxima saiba que é sua vez de passar na frente, isso você nota mais nitidamente em cruzamentos no trânsito – mais enfático no interior. No Brasil, o impacto é que parece que a esperteza aflora da pele de muita gente quando está em filas: banco, padaria, imigração, caixa de supermercado… Perder uma posição na fila parece atestar que a pessoa é idiota. Ceder posição para outros pode até fazer bem para quem cedeu e quem recebeu a gentileza, mas são brutalmente ofendidos pelos outros, com linguagem corporal ou verbal, porque não lhes parecerá que fez uma coisa boa, mas que deu um jeitinho.
Ah, o jeitinho brasileiro… E aqui vem o grande impacto que o Brasil proporciona. O jeitinho que dá vantagens e torna o brasileiro mundialmente conhecido é impactante ao imigrante de passagem no país. Atire uma tora quem nunca usou o jeitinho para obter vantagem. Mas depois de 5 anos, você quase-canadense, quando viaja ao Brasil, começa a achar aquilo errado, da mesma forma que acha errado cotas e filas preferenciais. Porque você aprendeu no Canadá que todos são iguais e tem direito ao mesmo tipo de atendimento, que não há raça, credo ou cor que impeça você de ter acesso a algum tipo de serviço. E você lembra que quando não era imigrante, achava bacana haver cadeiras azuis no metrô, fila preferencial ao idoso, cadeirante e gestante no banco, mas meu amigo, isso além de escancarar a má educação brasileira constantemente, também contribui para a perpetuação do jeitinho. Ficar na fila do banco e perceber que apesar de haver 5 pessoas na sua fila “normal” para apenas 1 caixa, a qualquer momento em que chega um senhor de terceira idade (olha que bonito, tem que ser politicamente correto no Brasil, sob pena de severas punições da lei…) ele é atendido, não vai parecer mais bacana para quem vivencia uma sociedade mais igualitária no Canadá.
E se tem uma coisa que disparadamente não é igual ao Canadá é  o impacto gastronômico que todo imigrante tem ao voltar para a terrinha. Comida em quantidade abundante, preços muito mais razoáveis (é só procurar) e uma variadade que um país tropical pode oferecer. Além disso, as opções de delivery são incrivelmente maiores graças aos motoboys (adendo: aqui, pelo clima complicado com inverno pesado, as entregas são feitas de carro. Portanto, mais demoradas)
Estes mesmos profissionais que trabalham sob a pressão do relógio e do trânsito todos os dias, também são a causa de muitos quase-acidentes que um imigrante enfrenta ao pegar um veículo no Brasil. Considero que as ruas brasileiras são muito mal planejadas, porque para abrir espaço para mais carros a prefeitura simplesmente reduz o espaço entre cada faixa para criar uma nova faixa – como é o caso do corredor norte-sul da capital paulista, a Avenida 23 de Maio. A decisão não só piorou o trânsito como transformou a passagem de motos num perigoso jogo de vida e morte para o motociclista. E eles agem de tal maneira que o brasileiro-canadense leva susto a cada súbita passagem da moto! Virar o volante um pouco para direita ou esquerda quando você está acostumado às vias mais largas do Canadá, não tem impacto nos outros veículos, mas no Brasil são centímetros que deixam a experiência de dirigir muito tensa e barulhenta.
O impacto no trânsito também tem seus momentos de contraste na educação. Aqui aprendemos – e até é o moralmente correto – que ao sinalizar para à direita, você deve respeitar os pedestres que estão atravessando a rua, deixando-os cruzar antes de prosseguir sua curva à direita. No Brasil acredito que levei umas 10 buzinadas por dia por causa desse tipo de comportamento, inaceitável numa cidade como São Paulo onde o carro é o soberano da rua e o pedestre tem apenas permissão por força de sinal para atravessar… Deixar o pedestre passar apenas quando o sinal estiver verde para ele. E olhe lá.
Andar a pé no Brasil torna-se é um martírio. A tensão de você ter que segurar muito bem seus pertences, esconder muito bem sua carteira e evitar ao máximo ostentar qualquer tipo de aparelho eletrônico ou jóia na rua tira o prazer de ir a qualquer simples padaria. Caminhando ao lado de mendigos, sujeira, buracos, postes entupidos de fios e sacos de lixo amontoados na rua esperando para serem recolhidos – isso quando a chuva não leva para entupir qualquer bueiro – você percebe que o “cuide de sua cidade” parece apenas um slogan político sem qualquer efeito prático, e que a ação deve partir da prefeitura, nunca do cidadão. E por falar em cidadão, outro impacto cultural é a burocracia. A dificuldade em obter documentos, certidões públicas e ao menos informações chega a irritar quando se pensa que em poucas horas você consegue abrir sua própria empresa em Québec. Cartórios, fóruns e distribuidores fazem parte de um árduo caminho para obter um documento que ainda está em transição para a internet.
E a bendita internet então? Com dezenas de propagandas prometendo 50, 100 e até 200 “megas” de velocidade, o acesso à internet e sua qualidade são a pior barreira que um profissional da minha área pode encontrar visitando o Brasil. Quando você só mora no Brasil, sua percepção sobre a velocidade e qualidade da internet é muito limitada, então não dá para agir contra qualquer prestadora de serviços de internet porque não há um parâmetro bom a exigir. Mas quem visita sofre. Principalmente ao fazer uso de upload. Arquivos de 12-15 megabytes parecem ir de má vontade para o e-mail de outras pessoas… E ainda tentaram me convencer de que o tal do 4G é excelente. Basta ter um smartphone bom e pagar meros R$ 74,90 para ter direito a 1 GB de internet. E preste bem atenção à cobertura do sinal 4G, que ainda é limitada e disfarçada de 3G em muitos locais. Resumo: seja internet móvel ou fixa, o impacto é grande quando se visita o Brasil.
Dito tudo isso, a conclusão não é a que normalmente se espera ouvir de quem conseguiu experimentar uma nova realidade: que o Brasil é uma porcaria e que o Canadá é o melhor país do mundo. Reflito sobre o mesmo motivo que me levou a deixar o país: a cultura faz – e força – o indivíduo a seguir o comportamento daquela cultura. Quando você morava no Brasil, era um horror incluir na merenda de sua filha itens como tomate cereja, aipo e brocolis. A sociedade não aceitava que você não colocava ao menos um biscoito e um suco de caixinha, junto com um kit-recreio cheio de guloseimas.
Se você anda na faixa ao atravessar a rua, principalmente em ruas menores, você foge da regra, você é um estranho.
Se você exige um atendimento igualitário, sai de uma agência bancária quase a pauladas, agredido verbal e fisicamente porque você não tem coração e não vê bondade em acreditar na fila prioritária.
Ou, no geral, quando você começa a listar os problemas do Brasil e seus amigos te chamam de “gringo idiota e exibido” porque você não pode exprimir sua opinião e muito menos ter respeito porque sua opinião é contra o que se acredita ser senso comum.
O impacto de quem visita o Brasil carregando uma outra cultura é grande, interessante, chocante e que intriga. Mas ainda não é um motivo proibitivo o suficiente para visitá-lo. Mas retornar ao Brasil de vez é um impacto que não quero ter para minha vida e de minha família.

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Sobre o autor
Julian Romero

Julian Romero

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Julian Romero é jornalista formado na UEL, em Londrina/PR, e imigrou para Québec em 2011. Trabalha com consultoria, análise e desenvolvimento de websistemas e é especialista em natação competitiva, além de molhar a sunga de vez em quando nas piscina canadenses.


Comentários 4

  1. Daniela

    Julian eu gostei muito do seu texto mas você deu uma informação errada. Aqui no Canadá tem cotas e prioridade sim!
    Tem cotas para minoria visível como os índios e etc.. e pra deficiente. (inclusive latino americano se você defender que faz parte de uma minoria visível você consegue se cadastrar) conheço brasileiro que conseguiu um emprego pela cota. E não é jeitinho! É um direito!
    E sobre prioridade; nos ônibus tem sempre a cadeira com o desenho mostrando a prioridade, tem estacionamento prioritário pra gravidas e deficientes e ate pra mãe com filhos pequenos…
    Aqui as minorias tem vez e são muito respeitadas mas isso não quer dizer que não seja uma sociedade igualitária, mas sim uma sociedade que respeita e garante a vaga aos menos favorecidos. Cotas é muito importante assim como prioridades. Pensar no outro que esta numa situação de desvantagem não é egoísmo, é respeito!

  2. montrealnareal

    Willians, se você nos acompanha há muito tempo, sabe que o que mais prezamos é o debate. Opiniões divergentes nos fazem refletir e tratar as questões. O autor do texto tem uma opinião e a expôs. Concordando ou não, achamos válido postar para gerar a discussão. Da mesma maneira que postamos opinião oposta a desse texto aqui http://montrealnareal.com/2015/07/30/por-que-os-brasileiros-se-acham-melhores-quando-estao-no-exterior/ O objetivo não é ofender ninguém, é discutir um tema. Até porque se somos brasileiros, falando de brasileiros. Portanto, todos nós, morando ou não no Brasil, somos parte do problema e o que mais queremos é nosso país melhor. Obrigado pelo comentário e volte sempre

  3. Willians Bonfim

    Caraca, juro que iria ler algo construtivo!!!, mesmo assim li todo o texto. Ja acompanho o Montreal na Real a bastante tempo, sei que a opinião de quem escreveu é pessoal, a galera do Montreal talvez concorde com ele, ou não. Mas, na minha opinião pessoal, ofendeu ao invés de “tentar ajudar!!!!” Tudo que ele disse, não precisa morar fora e voltar para o Brasil para saber. Antes que comecem a perguntar, sim, eu conheço outros países!!!! . Ao invés de passar algo que aprendeu morando fora do país, ta marretando a galera que esta aqui. E a imagem da Bandeira do Brasil!!! totalmente ofensiva. Quase nunca respondo a posts, mas esse foi muito FODA.

  4. Luiz

    Excelente post, Julian, muito esclarecedor. Imagino o impacto que acontece quando você tem contato com uma cultura como a Canadense e depois volta pra visitar o país. Estou num processo de conversas e entendimentos com a esposa sobre uma possível imigração para sua nova (nem tão nova assim) casa gelada, rss. Espero poder um dia compartilhar do mesmo “choque” que você vivenciou. Um abraço!

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