Humor | Opinião

As desventuras de um motorista pós-nevasca

Por Marcio Ribeiro

Dirigir em Montreal definitivamente não é das tarefas mas fáceis. Ok, você vai questionar “Ah, mas o trânsito é muito menos hostil, não há motos voando pelo corredor, buzina? O que é isso mesmo? Muito menos o perigo de ser assaltado apenas por respeitar os sinais de trânsito”. Certo. Nisso tudo você tem razão. Mas confesso que cruzar as ruas da cidade em pleno inverno é uma verdadeira corrida com obstáculos. Muitos aliás! No nosso programa semanal na rádio Centre-Ville, eu costumo dizer que quando o clima esfria eu sou louco para comprar um carro. Quando neva, eu desisto. Estar motorizado tem suas vantagens, mas  uma trabalheira danada! Você está preparado para encarar?

DSC_0542

Essa linda rua branquinha esconde um sabão

Dirigir quando neva algo em torno de 5 cm para cima é uma verdadeira aventura. Mesmo com os obrigatórios pneus de inverno, muitas vezes não é nada fácil domar o carro e fazê-lo andar em linha reta a baixa velocidade. O trajeto é pesado. A rua fica cremosa, como se estivéssemos rodando sobre areia, mas que escorrega como se estivesse ensaboada. No início parece uma poeira leve, mas que se acumula numa velocidade incrível. Com o tempo e se a nevasca continua, vira uma lama grossa e alta, lembrando um milkshake, mas que não nada doce.  Requer atenção triplicada para fazer qualquer movimento, por mais simples que seja. Por outro lado, mesmo sendo algo inusitado e que causa medo em  quem não está acostumado, não é nenhum bicho de sete cabeças. E se você se libertar do pânico, pode acabar se acostumando mais fácil do que imagina. Antes de precisar dirigir no inverno, eu imaginava que nunca conseguiria me adaptar e tentei adiar esse momento ao máximo. Mas quando você está atrás do volante e se correr o bicho pega, se ficar o bicho come,  você para de pensar que vai ser complicado, foca em entender que tem que frear muito mas muito mesmo antes do cruzamento, aprende que não dá para chapar o pé e dar uma freada brusca, se liga que não pode fazer a curva na mesma velocidade que faria num clima normal e sem neve no chão e que deve manter uma distância ainda maior do carro a frente. E a tarefa acaba se tornando quase corriqueira. Veja bem, eu disse quase…

O que não é corriqueiro, e pessoalmente acho que nunca vou me acostumar, é desenterrar, cavar, desneigear, o carro antes de poder sair com ele da vaga num dia de inverno. Ou ter que sacar sua pá (sim, se você pretende dirigir por essas bandas no inverno, descobrirá que a pá é sua maior companheira) para poder revelar uma vaga que até então estava soterrada por quilos e mais quilos de merda branca neve.  Ter  acesso ao seu veículo após uma noite de nevasca pode ser das missões mais dolorosas. Minhas costas que o digam. Na primeira vez que tive que encarar essa ingrata missão, tinha nevado na madrugada. Pela manhã, um pouco mais de neve. Olho pela janela e calculo que não tenho tempo de limpar o carro, ou chegaria atrasado para meu compromisso. Inocentemente, penso: “na volta eu limpo. Ou quem sabe, até lá, com esse clima louco, típico de Montreal, a temperatura já subiu e tudo estará derretido e semi-limpo quando eu voltar?!” Ahahaha otário!! Ledo engano! Sabe de nada inocente!! Toma essa que tu merece! Quatro horas depois, a neve caía ainda mais forte. Como todo castigo para bobo é pouco,  dessa vez a neve acompanhada da sua amiga chuva. Ou melhor, chuva congelante. Além disso, fica aqui um agradecimento especial ao simpático motorista do trator que limpa a neve das ruas e faz o favor de empurrá-la em direção à calçada, criando nada menos que uma montanha gelada na lateral do carro estacionado. Que sua vida seja repleta da mesma “alegria”que me proporcionou….

DSC_0528

Precisa dizer algo?

Conclusão: Uns 15 cm de gelo em cima do carro. Quando eu digo gelo, imagine seu congelador quando ele não é limpo há um tempo. Sabe aquela camada branca que se forma? Isso aí. Imagine ela espessa. Agora multiplica por 15. É isso que você tem que limpar. A montanha de neve suja na lateral era tão alta, que ao subi-la eu era capaz de olhar o teto do carro de cima para baixo. Agora, imaginem o quão sólido era esse monte e a dificuldade de removê-lo? Pois é… Haja marretada. Parecia concreto. A neve somada à chuva congelante croquetou o carro de tal maneira que ele se tornou uma pedra de gelo. Rígida, gelada, imóvel e que parecia que me desafiava quase cantando, “daqui eu não saio, daqui ninguém me tira”. Para facilitar ainda mais a minha vida, os singelos proprietários dos carros que antes estavam estacionados imediatamente à frente e imediatamente atrás do meu, resolveram despejar a neve retirada de suas vagas adivinha aonde? Imediatamente à frente e imediatamente atrás do meu querido bólido, claro. Resumindo, foram nada menos que 50 minutos de sangue, suor, muito suor, lágrimas, dores nas costas, dedos congelados, pânico, chuva na cara, desespero, tristeza, vontade de matar, vontade de morrer, vontade de largar tudo e voltar para o Brasil, vontade de pedir demissão, exaustão e uma alegria só comparável ao pênalti perdido por Roberto Baggio na final da Copa de 94, quando finalmente consegui emergir de dentro daquela catástrofe gelada. Galvão Bueno me acompanhava no banco do carona me abraçando e gritando “É Teeetrraaaaa” quando consegui finalmente sair da vaga. Isso tudo a uma temperatura de -10 graus. Foi emocionante e inesquecível.

Mais uma lição aprendida. Fique de olho na neve. Limpe o carro, cave a vaga em torno dele, sempre que tiver tempo. Se deixar acumular, prepare os braços, pás, músculos, costas e paciência e peça ajuda. O relato acima não traduz toda a experiência enfrentada por um motorista no inverno. Não é sempre que acontecem nevascas, nem chuva congelante. E também não será sempre que você será malandrão o suficiente para não cavar a vaga por partes. Mas (em teoria) você terá que conviver com a logística de planejar sair de casa mais cedo para cavar o carro ou chegar mais tarde para cavar uma vaga antes de conseguir estacionar.

E já ia me esquecendo. Uma salva de palmas também para o sistema de limpeza de neve da cidade. Esse sistema é apontado como um dos melhores do mundo. De verdade. Em Nova York quando acontecem períodos de neve intensa, eles sempre citam o eficiente sistema de limpeza de neve de Montreal. Como não sou especialista no assunto e meu papel aqui é reclamar e destilar todo o meu mimimi, ainda não consegui entender o que se passa na cabeça de quem planeja esse sistema. Só para ter uma ideia, estacionamento em Montreal é um problema sério. A maioria dos prédios não tem garagem coberta (como assim?? Um lugar em que neva boa parte do ano não tem garagem nos prédios?  Pois é…). O mais comum é estacionar nas ruas. Mas quando vai ocorrer a limpeza de neve, a prefeitura simplesmente coloca uma maldita placa laranja que avisa sobre o bloqueio de 12 horas de uma parte do bairro. Mesmo tentando fazer esse processo em um lado da rua de  cada vez, eles bloqueiam tantas ruas ao mesmo tempo que se torna fisicamente impossível conseguir arrumar estacionamento para todos os carros que já travam uma verdadeira batalha por um local para passar a noite quando é permitido estacionar. Imagina com os espaços interditados para a limpeza?!

DSC_0526

O conceito de rua cremosa

Mas é assim que a banda toca e há muito tempo. Parando apenas espernear e falando sério, é incrível como um cenário que pode ser sinônimo de caos e confusão, aqui em Montreal acaba se tornando parte da rotina diária e até mesmo de fácil gerenciamento se você entender as regras do jogo. Na primeira operação de retirada de neve do ano, após a incrível tempestade do dia 29 de dezembro (vídeo aqui) , os funcionários da prefeitura conseguiram retirar 52,7 cm de neve em apenas 5 dias, respeitando os novos prazos da recém implantada política de limpeza unificada da cidade. A partir desse inverno, a prefeitura passa a gerenciar o déneigement e não mais os arrondissements (espécie de regiões administrativas que reúnem vários bairros). Então cada arrondissement tem até 12 horas para colocar em prática sua operação de guerra nas ruas ou sofrerá pesadas multas. A prefeitura de Montreal, inclusive, criou um site e um aplicativo para tentar informar melhor ao cidadão sobre o andamento do processo de retirada de neve e quais os locais estão disponíveis ou não para estacionamento  (aqui). Legal né? Mais legal ainda será o dia que disponibilizarem um aplicativo que derreta a neve ou desenterre o carro à distância, diretamente pelo smartphone…enquanto o futuro não chega, aguenta aí que voltou a nevar e tenho que ir ali cavar o carro.

 

Textos relacionados

Chegou o dia D. Está preparado? Hoje, 15/02/2016, é a véspera de uma data extremamente importante para os aspirantes da imigração para a província do Québec, Canada. Para os mais novatos ou os que desconhecem a importância disso tudo, pode até parecer exagero, mas para os que se prepararam por dias meses anos é hora sim de se desesperar. Um desespero no bom sentido. Afinal, não é...
#72 – 10 assuntos quentes e atuais da vida ... Quebrando o protocolo,  Montreal na Real na Radio Centre-Ville dessa semana decidiu não debater apenas um tema, mas 10 assuntos ligados ao dia-a-dia das Terras geladas! Marcio, Cida de Roussan e Tati Garrafa voltaram ao formato que já foi usado em outros programas e separaram vários assuntos quentes tanto no Brasil quanto no Canadá. Mas sem perder ...
Recorde. Québec apresenta a menor taxa de desempre... A província do Québec alcançou em junho sua menor taxa de desemprego em décadas, seguindo a tendência de queda apresentada em maio último. O índice agora se encontra a 6,5%, segundo dados do Statistique Canada, órgão resonsável pela medição e divulgação.  A taxa é a menor desde 1976, ano em que os dados começaram a ser coletados. São mais de 45 ...

Sobre o autor
Marcio Ribeiro

Marcio Ribeiro

Comunicador, cineasta, empreendedor, imigrante, apaixonado por Montreal.


Comentários 3

  1. Milena Fernandes
    Milena Fernandes

    Eu ri alto lendo seu texto e me vi em diversas das situações. É o meu primeiro inverno de carro e eu nunca tive tanto medo de uma simples alça de acesso na rodovia (o carro faz a curva dançando macarena, que meeeedoo!)
    Mas vamos que vamos, sem pânico, uns musculos a mais no braço de tanto cavar o carro e usando todas as lições do famigerado curso de direção defensiva da aula escola.
    Adorei o texto!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.