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Como lidar com o québécois sem se cansar?

Por Sarah Sanchez

Ela te lançou um sorriso, mas não quer dizer que esteja interessada. Teu colega québécois recusa tua ajuda sempre que você oferece. Recebeu um presente… seria de bom tom agradecer com outro do mesmo valor. São esses códigos sociais e muito outros que o autor Dany Laferrière te ajuda a decifrar em seu último livro, Tout ce qu’on ne te dira pas, Mongo.

Para quem não conhece: Dany Laferrière é o escritor queridinho do Québec. Ainda mais desde que entrou na prestigiosa Académie française, em maio de 2015. Aí virou imortal. E para a gente, um imortal québécois. Ele nasceu no Haiti, chegou em Montreal com 23 anos em 1976 e gosta de dizer que é um escritor japonês. Tanto faz, para nós ele é daqui. O sucesso dele nos pertence. É um pure laine nos representando em Paris.

 

Só que não. Como ao longo de sua obra, o traço autobiográfico também está presente em seu mais recente romance. Dany revaloriza a perspectiva imigrante. Com um olhar estrangeiro, muito crítico mas também carinhoso, ele disseca com distanciamento e propriedade os mitos da sociedade que o acolheu 40 anos atrás. Ele dá sentido aos trejeitos locais. Lembra a história desse povo norte-americano, distinto. Faz uma análise transparente de impressões compartilhadas por todos nós. Fala de amizade, do silêncio, de humor, poesia, suicídio, linguagem corporal, racismo, política, identidade e outros pontos sensíveis. Tudo isso explicado num diálogo com Mongo, um camaronês recém-chegado na metrópole québécoise. Para que ele entenda o funcionamento desse novo mundo, para que possa evitar conflitos inúteis, poupar energia. Tudo isso ele escreveu para você também.

 

Dany Laferriere -  AFP PHOTO MIGUEL MEDINA

Dany Laferriere – AFP PHOTO MIGUEL MEDINA

Amor polar

 

Talvez como vários de vocês, Mongo chegou em Montréal no verão. Época descontraída e perfeita para admirar belezas nórdicas. A temporada da diversão, da solteirice. Mas Mongo não sabe o que o aguarda. Ainda não imagina como as estações dessa província boreal afetam o comportamento humano, as relações, o amor. Dany avisa:

 

L’hiver est si rude qu’il est conseillé de se trouver une blonde. Elle n’est pas obligé d’être blonde, elle peut être camerounaise, puisque c’est un mot vidé de son sens racial. Dès le printemps, il faut la repérer, lui faire la cour pendant la canicule du mois de juillet, et tenter de la garder durant l’automne, en évitant les sujets épineux, afin de traverser, en toute quiétude, les longues nuits polaires. Si les choses se sont mal passées, on peut rompre au printemps, qui est une zone tampon, car on a une plage de temps devant soi.

 

Coisas básicas, Mongo. Mas outras nuances são muito mais difíceis de captar. São precisos tempo e paciência. O comportamento do québécois se justifica em parte pelo frio, mas também pela história do seu povo e muito pelo passado religioso. Para entender isso, a curiosidade e o interesse pela cultura do país que acolhe são fundamentais.

 

Contradições

 

De fato, Dany explica que mesmo se o québécois diz ter eliminado a igreja do seu mundo, ele carrega um legado religioso extremamente forte. O cristianismo moldou o jeito de ser québécois. A cultura católica fez dele um ser caridoso. Uma pessoa que gosta de ajudar, mas sobretudo de se sentir útil.

 

 

Cela se trouve dans l’ADN du Québécois. Il est programmé pour aider son prochain. Donnez-lui la possibilité d’être utile et rien ne pourra l’arrêter. Si vous le laissez faire, il vous donnera tout ce qu’il possède. C’est un charitable actif.

 

Dito isso, não seja abusado! Se o québécois é generoso, ele também é desconfiado. Ele está sempre encurralado entre o desejo de ajudar e o receio de ser explorado. Traço de personalidade de quem já foi colonizado.

 

Jamais lui demander quoi que ce soit, ni prendre son sens d’autrui pour acquis. Il peut se retourner contre vous s’il a l’impression d’être exploité. Il change d’humeur dès qu’il se sent manipulé.

 

Sei, soa meio contraditório. Como pode alguém ser generoso e ao mesmo tempo não gostar de ter sua ajuda solicitada? É porque o québécois, acima de tudo, odeia pedir ajuda ou ser ajudado. Ele precisa demonstrar independência, tanto dos pais como dos amigos. Quer tomar as próprias decisões, pagar as próprias coisas. Ele não quer dever nada a ninguém.

 

Ce n’est pas de la mesquinerie, mais plutôt un refus profond chez le Québécois de parasiter. L’argent a plus une valeur symbolique ici. On a compris depuis longtemps la force de l’argent dans l’indépendance d’un individu comme dans celle d’un pays. Le Québec croit qu’un colonisé est d’abord un cassé, c’est-à-dire quelqu’un qui dépend économiquement de quelqu’un d’autre. Comme c’est un peuple passionné et orgueilleux, ils ont poussé l’affaire jusqu’à sa dernière extrémité. On refuse d’être aidé. C’est là qu’on joue son honneur.

 

Individualismo coletivo

 

Com um pouco mais de tempo nessas terras geladas, Mongo entenderá também as contradições da sociedade québécoise. Aqui, por exemplo, andamos em grupo. Tudo é feito de forma coletiva, privilegiamos acordos. Gostamos dessa ilusão de uma sociedade justa, igualitária, sem divisão de classe. Talvez seja influência da mentalidade eclesiástica empregada na história da província, afinal, todos somos iguais perante Deus. Ou talvez seja o inverno, outra vez o bendito inverno. Dany explica:

 

L’hiver est une saison collective. On sait que si on se sépare du troupeau, on risque s’égarer et c’est la mort certaine. L’été est une saison plus individuelle. La chaleur protège les élans personnels. Si vous faites une brillante sortie dans un débat, on vous applaudira à coup sûr, mais on votera contre vous. Pas parce qu’on est contre les idées formulées, plus contre la démarche. […] Ce n’est pas la logique qui intéresse cette société, mais le consensus. Voilà un mot que vous ignoriez avant. Pour vous, c’est une perte de temps. Pour eux, c’est du temps gagné puisqu’il est plus difficile de défaire une décision prise en commun.

 

Esse movimento homogêneo, porém, não se reflete na realidade da rua. Fica a impressão de que se trata de um povo pulverizado. Cada um na própria bolha. Dany descreve lindamente.

 

On voit des gens se croiser sans se voir dans les rues de Montréal. C’est qu’ils ont habités d’angoisses si différentes. Cette Irakienne songe à sa ville natale complètement détruite et à sa famille trouvée dans les décombres d’un immeuble. Cet Algérien est en route depuis si longtemps qu’il ne se souvient plus à quoi ressemble Alger. Cette Haïtienne écoute les nouvelles à la télé, le soir, le coeur palpitant d’apprendre soudain une nouvelle tragédie. Leur esprit est souvent ailleurs.

 

Parte da cabeça e do coração do imigrante sempre estarão lá longe, na terra da infância. Mas um dia todos precisam aterrissar plenamente no novo lar, o dos filhos. O imigrante precisa se adaptar para não morrer.

 

C’est ainsi dans tous les pays. Une nouvelle ville, avec de codes inconnus et des manières inédites, est toujours une nouvelle jungle. Si vous ne voulez pas vous faire avaler par la machine, il faut connaître les règles qui sont généralement établies avant votre arrivée. Ne discutez pas de cela. C’est une perte de temps. Plus vite vous apprendrez les règles, plus rapidement vous pourrez les contourner.

 

Não que o imigrante precise concordar com todos os códigos e leis tácitas da terra que o acolhe, mas para saber como atenuá-las, como encontrar uma flexibilidade dentro delas, primeiro é preciso conhecê-las bem. Desde que se respeite as regras do jogo, sempre haverá espaço para a ginga.

 

 

 

 

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Sobre o autor
Sarah Sanchez

Sarah Sanchez

Jornalista, québécoise, apaixonada pelo Brasil.


Comentários 4

  1. David Fernandes

    Parabéns Sarah, adorei o texto, olhar sensível e aguçado sobre o texto de Dany e seu olhar contraditório sobre o diferente. Já li Como fazer amor… e país sem chapéu, espero que esse novo livro seja logo traduzido para o PT.

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