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Stade Olympique: um elefante nem tão branco assim

Por Marcio Ribeiro

DSC_0006_9O complexo do Parque Olímpico é um dos símbolos de Montreal. A arquitetura moderna do estádio e sua torre de 165 metros de altura, a mais alta torre inclinada do mundo, se destacam da paisagem de casas e prédios baixos em qualquer imagem aérea que se faça da cidade. Construído para  os Jogos Olímpicos de 1976 como um exemplo de obra moderna, chegando a ter o tão badalado com teto retrátil em seu estádio (que nunca funcionou), o complexo demorou mais de 30 anos para ter pago seu custo de 1,5 bilhão de dólares e tornou-se motivo de piada e preocupação para o povo e governantes da cidade.  

A falta de atividades que justificassem um custo tão suntuoso, tornou o Stade Olympique, como se diz na gíria popular brasileira, um verdadeiro elefante branco. Muitos chegaram a especular e pregar a necessidade de demolição. Mas a ideia não só está descartada esse ano pelo presidente do Parc Olympique, Michel Labrecque, como o governo pretende investir ainda mais no local para que ele seja útil à população (que afinal é quem paga uma grande carga tributária e banca tudo isso).

 

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Vista de um dos locais de spinning livre

Em novembro de 2015, o governo do Québec aprovou um aporte de 166 milhões de dólares para manutenção e reforma estrutural do estádio, mas já vinha adotando alternativas para tentar revitalizar esse belo elefantão. E essas medidas alternativas já vem de longa data, tanto que o estádio só foi totalmente pago ano passado, mas usou os recursos oriundos dos impostos pagos pela indústria do cigarro. E quando nos lembramos dos estádios construídos para a Copa do Mundo do Brasil, superfaturados e praticamente sem uso, é que vamos a distância que separam nossos governantes dos dirigentes québécoises. Eles também erram, também se envolvem em corrupção, mas existe no ar um sentimento de que algo precisa ser feito para minimizar tais erros. E o que tem acontecido com o Estádio Olímpico resume bem o que estou dizendo.

Só em 2014, o local recebeu nada menos que 180 atividades ao longo do ano e teve mais de 250 mil visitantes fora dessas atividades. O Impact de Montreal, time de futebol da cidade, manda seus jogos no “Big O” quando a temperatura começa a cair e chegou a atrair 68 mil pessoas à final da Champions League da Concacaf.  O time de baseball de Toronto, o Blu Jays, fez jogos amistosos que lotaram o local e repetirão a dose em 2016. Mas, no meu ponto de vista, a grande mudança foi a renovação de centro esportivo, já que permite ao cidadão comum desfrutar de estruturas utilizadas na preparação de  atletas olímpicos, ter acesso a uma infinidade de atividades em qualquer época do ano e ter a sensação de que não rasgou dinheiro pagando impostos.

O Complexo ficou fechado, em reforma, de outubro de 2013 a maio de 2015 e passou a sediar o INS – Institut National du Sport du Québec. Ou seja, a partir desse ano, os melhores atletas da província (e muitos de fora também) treinam lado a lado conosco, cidadãos comuns, em estruturas novíssimas e de alto nível. O INS tem o melhor tatame da América do Norte e não raro é possível ver judocas de seleções de outros países treinando junto com os canadenses para desfrutar dessa estrutura. Isso faz com que as equipes locais sempre tenham desafios importantes em seu período de preparação para competições oficiais. O complexo aquático foi reformado, seguindo orientações e normas da Federação Internacional de Natação e comporta piscinas que regulam eletronicamente a altura do chão, temperatura e tem tamanhos oficiais, assim como os locais para prática de saltos ornamentais e nado sincronizado. E tudo isso está à disposição para quem se afiliar ao centro esportivo.

 

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Wibit

Nos fins de semana, famílias inteiras aproveitam para curtir o local como se fosse um verdadeiro clube, com área para nado livre, recreação infantil e para um bate papo entre amigos dentro de piscinas cobertas e climatizadas. Além disso, aos domingos acontece o Wibit, transformando uma parte da piscina em área de recreação e aventura para adultos e crianças.

 

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Não vai ser por falta de aparelho que você vai deixar de fazer aquele aeróbico básico de cada dia

As obras feitas no centro de treinamento físico transformaram o Centre Sportif numa das maiores e mais bem equipadas academias da província. A inscrição dá acesso à todos os aparelhos e pesos livres, internet wi-fi, aulas em grupo de treinamento funcional, yoga, spinning, Pilates, Zumba, Aquafitness, corrida, cardio-velô,  área de treinamento aeróbico (com inúmeras esteiras, transport e remos super modernos), acompanhamento de um treinador, programa especializado, consulta com fisioterapeuta, sauna e complexo aquático. Tudo novinho em folha. Os vestiários são enormes, bem equipados, muito limpos e contam com armários que podem ser usados de graça por dia, ou alugados, caso você queira ter seu espaço sempre cativo. Mas aí você deve estar se perguntando que isso tudo deve ser caro pacas. Não. Os valores são bem razoáveis, ainda mais se considerarmos as grandes academias espalhadas pela cidade que cobram o olho da cara  (claro que sempre existem as opções em conta como EconoFitness por exemplo, uma espécie de irmã canadense da SmartFit brasileira. Mas são serviços diferentes para estruturas e bolsos diferentes). Como exemplo, o pacote anual de um adulto custa 599 dólares (cerca de 49,90 por mês) enquanto o de um casal, residente na mesma casa 960,00 (80/mês). O interessante é que se você optar pelo pacote anual, pode pagar por mês e cancelar a qualquer momento.

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Academia espaçosa com aparelhos modernos

Se você está procurando atividades para fazer mesmo com o poderoso inverno québécois, fazer uma visita ao reformado Centre Sportif pode ser uma boa opção. E as iniciativas para terminar de pagar e revitalizar todo o complexo são um sinal de que, se bem administrado pelo poder público, o charmoso e imponente Parc Olympique até que não é um elefante tão branco assim.

 

Saiba mais:  Centro Esportivo do Parque Olímpico

 

 

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Sobre o autor
Marcio Ribeiro

Marcio Ribeiro

Comunicador, cineasta, empreendedor, imigrante, apaixonado por Montreal.


Comentários 4

  1. Marcio Ribeiro Post
    Author
    Marcio Ribeiro

    Eu penso como você Victor, no estádio como legado. Mas (com o perdão do trocadilho) por muito tempo ele esteve mais para largado. O povo não engolia o alto custo dele e a falta de atividades. Ele ainda é deficitário, mas o legal é ver que estão tentando soluções criativas e maneiras de retornar os impostos pagos pelo povo. Valeu o comentário, volte sempre. Abs

  2. Victor Mirsky

    Muito bom artigo! Já li alguns outros comentários a respeito do Estádio Olímpico de Montreal e seu elevado custo de construção e de manutenção. mas nunca vi nada a respeito dos benefícios que a Olimpíada de 76 e o seu legado (o estádio por exemplo) trouxeram ou não para a cidade. Penso notadamente no lado turístico, pois quem visita a cidade sempre passa nessa região. Eu mesmo gostei muito de visitar o estádio e as outras atividades próximas quando visitei a cidade em 2007 ainda como turista.

  3. montrealnareal

    Exatamente. Aqui temos indícios de que o governo se preocupa de maneira mais ampla com o bem-estar da população e tenta retornar em parte os impostos pagos em benefícios. Não é um local perfeito, ainda sofre com corrupção, mas tem esse viés social. Obrigado pelo comentário

  4. Maria Isabela Fonseca Pires

    “O artigo mostra que o interesse público está para a administração pública, que mantém o índice de desenvolvimento humano – IDH – no interesse do bem-estar comum, pois valoriza o investimento público, que proporciona vida saudável à população ativa e inativa, melhorando a expectativa de longevidade da sociedade em Montreal no Canada.”

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