Opinião

“Pourboire” e o péssimo hábito dos brasileiros na hora de dar gorjeta.

Por montrealnareal

por Rogério Tanganelli

Quando visitamos um país ou nos mudamos para nele viver precisamos entender as convenções sociais do lugar onde estamos pisando. E na América do Norte é assim : damos gorjeta. No caso do Québec, pourboire, ou em inglês, tip. A discussão em torno do tema é longa e provoca debates calorosos entre quem defende e quem abomina. Mas é claro, precisamos encontrar o meio termo. Comecemos pela lei.

Pouboire ( gorjeta ) é obrigatório no Québec ?

Não. Não existe lei que obrigue o pagamento da gorjeta. Mas alguns restaurantes costumam incluir o serviço em mesas de grupos com mais de 10 clientes em média. A prática é permitida, desde que ela esteja expressa no menu. Então se isso lhe incomoda, leia o menu com atenção antes de realizar o seu pedido.

Como calcular o pourboire. A hora do susto.  

Sempre é bom se informar. Ao escolher um restaurante cabe a você fazer o cálculo matemático se o menu em questão cabe no seu bolso. Para não ter surpresas faça o seguinte cálculo.  Se o prato escolhido mais bebidas irão te custar 50$, some a este valor os 15% das taxas impostas no Québec, as famosas TPS e TVQ. São taxas obrigatórias em todo o comércio.  Logo, sua conta salta para 57 $ com a adição dos 15% das taxas. Os 15% de taxas, ou 7,5 $, correspondem também a sua gorjeta média por um bom serviço.  Então sua conta no final será 65 $. Você que já está gritando que não dá nem a pau por que é brasileiro com muito orgulho, calma. A gente chega lá. Vamos entender primeiro o Québec, depois entenderemos você.

É verdade que quando deixo de dar gorjeta o garçom paga a minha noitada do próprio bolso ?

Sim.  No Québec os garçons recebem salário menor que outros profissionais. A hora mínima de um garçom permitido por lei é de 9,5 $  (aumento de 0,15$ aprovado em 1º de maio de 2015) contra os 10,55 $ de outros trabalhadores. Mas o garçom é taxado em imposto sobre 8% de suas vendas. O Governo faz um cálculo das vendas totais do restaurante e impõe o imposto sobre o montante. Como as “tips” podem ser pagas em dinheiro, o governo não fiscaliza se a grana foi dada ou não pelo cliente, ele subentende que sim e toma-lhe taxa. Resumindo, quando você não dá a gorjeta o garçom paga do bolso dele a sua curtição. Se é certo ou não ainda não entramos no mérito. Esta é apenas a regra de como funciona.

Onde devo dar gorjeta ?

Restaurantes – de 10% a 15%

Cabeleireiros – mínimo 2 $ mas pode obedecer a regra dos 10%

Condutores de táxi ( caso ele tenha te ajudado com malas ) – à sua escolha.

Camareira – mínimo 2$ mas pode obedecer a regra dos 10%

Vestiários de bares e restaurantes –   mínimo 2 $

A discussão em torno da gorjeta.

É preciso lembrar que o ato de ofertar dinheiro extra por um seriço prestado é questionado no mundo inteiro. Conta a tradição que a TIP ( To Insurance Prompitude ou a garantia de um serviço rápido) nasceu no século 16 na Inglaterra e ganhou força nos EUA por volta de 1840. Após a guerra civil americana, novos ricos da terra do Tio Sam visitaram a Europa e importaram a prática. É exatamente nos EUA que nasce também os maiores críticos da oferta benevolente. Os americanos são acusados de darem excessivamente gorjeta. É como se estivessem alimentado demais os pombos. Para os críticos, a gorjeta é anti-democrática por que perpetua a condição servil de uma classe de trabalhadores, que dependem da boa vontade de seus clientes para sobreviver pois contam com salários menores. Para eles, a prática ainda alimentaria certos tipos de assédio sexual e discriminação racial ao inferiorizar e colocar profissionais numa condição de dependência. Você pode encontrar um pouco sobre o debate neste artigo.

bras cubas e o almocreve

O almocreve de Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis e a ausência do mérito em servir.

Brasileiros, péssimos em gorjeta.

Quando pensei em escrever sobre o tema um texto do Machado de Assis me veio à mente. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas o personagem de Machado resolve agraciar um almocreve, um condutor de animais que o livra de um acidente, que em sua descrição poderia ter trágico fim. Brás Cubas leva a mão ao bolso para pegar três moedas de ouro e agradecer o préstimo do servo solicito. Mas uma interpretação do fato faz Cubas titubear e cogitar em dar o valor de três moedas de ouro. Por que pagá-lo ? Não seria muito ? Fez por merecer ? Não fez mais que obrigação? Muda de idéia e paga ao servo uma moeda de prata.  Mas quando mete a mão no bolso descobre outras em bronze e pensa que as últimas estariam de bom tamanho para alguém acostumado ao impulso natural de servir. Brás Cubas teve remorsos.  Leia o conto aqui.

Machado de Assis retrata um Brasil que parece ter se acostumado muito bem ao trânsito entre a Casa Grande e a Senzala. Brasileiros que viajam pelo mundo podem ter saído da primeira ou da última, mas estão quase sempre presos, ainda que incondicionalmente, a esta lógica servil de má distribuição e péssimo pagamento. Muitos incorporam Brás Cubas ao meter a mão no bolso na hora da TIP.  Quase sempre tentam encontrar justificativas para não pagar a gorjeta. Alguns brasileiros são tão “pão duro” que a curtição de sair e se divertir em um restaurante deu lugar a um verdadeiro jogo dos sete erros. A experiência gastrônomica foi convertida em uma busca incessante por falhas no serviço que justifiquem a reclamação. Em outras palvaras são chorões históricos dignos de um conto machadiano. São figuras engraçadas. Aqui vai algumas dicas para identificar este brasileiro e seu jogo dos sete erros.

– Não importa o que está escrito no menu vão sempre pedir o que o restaurante não oferece. Exemplo. Num japonês vão perguntar. Voces não fazem ovo frito. Não. Que saco. Lá em Ibitinga todo japonês já frita um caipira, que atrasado.   Ele já tem aqui o primeiro motivo para descontar no serviço do garçom.

– O garçom deu bom dia mas não perguntou ao brasileiro se ele está feliz, qual sua cor preferida, signo e se a parentada no interior de Minas Gerais vai bem. Resultado. Mal educado esse garçom né. Trata a gente com indiferença.

– O preço está no cardápio e o brasileiro pede 27 canecas de cerveja. Resultado final. Bom, além de levemente alcoolizado o susto com a conta, como se a matemática fosse um movimento conspiratório anti-patriota tupiniquim. Some aí os 15% de taxas e veja se ele irá deixar gorjeta. Vai querer salvar o prejuízo em cima do pobre almocreve.

Meu filho pode quebrar este restaurante inteiro e incomodar os clientes na mesa ao lado senhor garçom. Não minha senhora. Aposto que ele não tem filho esse garçom desalmado.

No geral, brasileiros se assemelham muito aos latinos quando o assunto é gorjeta. Nos Estados Unidos, latinos e asiáticos são considerados os piores clientes neste quesito como mostra este estudo da Cornell University School of Hotel Administration.

pourboire

foto. www.immigrantquebec.com

Posso questionar a gorjeta ?

Claro. Não só pode como deve. E existem diversas formas para se fazer isso. Uma delas é escolher fazer suas refeições em casa ou preferir um piquenique mais econômico caso você não tenha dinheiro suficiente para comer em certos restaurantes. Por enquanto o sistema do Québec funciona assim. Socialmente a gorjeta é a forma que o garçom compõe seu salário. Até que isto mude em legislação ou mesmo em convenção social, você deve dar gorjetas. Quando você não dá e ainda manifesta o fato de ser brasileiro acaba prejudicando a imagem do turista e residente verde e amarelo.

É preciso que o serviço seja execrável para justificar a ausência do pourboire. Você precisa ter em conta que o garçom escolheu o restaurante para trabalhar e não para comer. Se a comida está ruim não é culpa do garçom e sim do cozinheiro. Fale com o gerente. E o serviço do garçom não deve ser prejudicado assim como o salário que sustenta sua família. As recomendações não são minhas. Você pode conferir neste site da Radio Canada.  Outra responsabilidade do cliente é tentar manter um bom nível de diálogo com o garçom do começo ao fim e advertí-lo se algum problema está ocorrendo, não esperar para no fim e tentar puní-lo com a ausência do pourboire.

E por favor  meu amigo, não deixe moedas em cima da mesa. Isso não se faz. Um profissional que está acostumado com 15% de 90% de sua clientela ficará ofendido com poucas moedas depositadas em cima da mesa. É melhor que você não deixe nada que oferecê-lo 0,50$ de gorjeta.

É claro que o perfil brasileiro aí acima foi um uso de linguagem para ilustrar o comportamento de um tipo de cliente. Muitos brasileiros, principalmente os mais informados e que já estão morando no exterior há mais tempo, conhecem a prática e sabem muito bem como promover o respeito e boa integração cultural.

Outras fontes

http://www.restaurateurs.ca/

http://www.cnt.gouv.qc.ca/salaire-paie-et-travail/salaire/salarie-au-pourboire/

http://time.com/money/3394185/tipping-myths-realities-history/

http://www.canalvie.com/famille/vie-de-famille/consommation/les-pourboires-combien-donner-1.965997

http://www.wikihow.com/Tip-Your-Server-at-a-Restaurant

 

 


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