Emprego

Mercado de Trabalho no Québec. Os 7 pecados capitais dentro do ambiente corporativo.

Por montrealnareal

 

Ambiente-de-trabalho-saudávelpor Rogério Tanganelli

O mercado de trabalho de um país reflete o comportamento social de seu povo. Hábitos, costumes, tradições são apenas alguns dos elementos que vão guiar o comportamento deste trabalhador e suas relações pessoais. Entender esta lógica é dar um grande passo para o sucesso no mercado de trabalho do Québec. Por isso a reportagem de hoje da série Mercado de Trabalho e emprego tem como tema a hierarquia e o relacionamento com colegas e patrão no ambiente de trabalho.

Sociedade igualitária.  

Ao chegar no Québec você irá perceber que o “status social” não cria necessariamente uma distância entre as pessoas. Gente de diversas camadas econômicas frequentam os mesmos espaços públicos. Assim é também o mundo do trabalho. A distância entre patrões e empregados não é tão longa quanto no Brasil. Muitos patrões da América do Norte se orgulham de “meter a mão na massa” e no Québec não é diferente.  É a visão do patrão “coach” no lugar de chefe.

Segundo um levantamento do governo do Québec pelo ministério do Trabalho, 20 a 30% das empresas são guiadas por um modelo mais tradicional e por procedimentos mais restritos.  Seria o modelo de chefe que conhecemos dentro de usinas por exemplo ou em empresas de informática, centro de chamadas, os famosos telemarketing, etc. Mas isso não é uma regra.

35% a 40 das empresas são orientadas pelas relações humanas muito mais que pelos processos e protocolos. Normalmente são as empresas de administração pública, vendas, comércio varejista, etc que adotam este modelo. Neste perfil o patrão funciona como “leader” ou manager. É o perfil de um profissional que está apto a receber e aplicar novas tendências e uma administração mais renovada.

25 a 30% das empresas são orientadas pela criação e experimentação. São os organismos culturais, escritórios de arquitetura, marketing, consultoria, etc. Os líderes destas empresas geralmente funcionam mais como “coach”. A responsabilidade deste líder é ajudar no desenvolvimento pessoal dos profissionais que se encontram engajados dentro do projeto da empresa. Mas nada impede que uma usina se apoie no modelo de administração renovada, como é  o caso da  empresa 100% do Québec, a gigante do papel Cascades. A indústria se orgulha de ter uma hierarquia fraca, ou “Faible Hiérarchie”, onde patrões se tornam acessíveis e até com salários expostos aos empregadores.

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Sede da empresa Cascades em Kingsey Falls. A empresa é modelo de gestão copiado por empresas do mundo inteiro e umas das maiores potências econômicas do Québec.

Especialistas dizem que a “faible hiérarchie” vem de uma tradição québécoise da revolução tranquila, que derrubou a autoridade da igreja católica e passou a desprezar a forte imposição, ordenança e distanciamento através do autoritarismo.

Existe uma escola de renovação do trabalho no Québec, onde o dirigente é acessível e se porta simplesmente como um profissional a mais como os outros dentro da empresa. O contato entre chefia e colegas é muito mais informal que formal. As instruções podem ser adaptadas e as decisões da empresa são descentralizadas. O dirigente é cordial e age como um “coach”, ou seja, um líder participativo.

Obviamente estamos falando de um modelo aplicado por parte do mercado de trabalho. Entretanto, é preciso tomar cuidados e seguir conselhos ao se lançar. Por isso convidamos a especialista Natália Russo, brasileira e consultora em carreira e empregabilidade, há 7 anos no Québec. Natália oferece consultoria privada e trabalha também em organismos de empregabilidade do Québec. Ela nos diz que é preciso aprender a ler o ambiente de trabalho que estamos sendo convidados a oferecer nossos serviços.  Natália também fala dos 7 pecados capitais a evitar. Acompanhe a entrevista abaixo.

Natália Russo. Consultora em empregabilidade há 7 anos no Québec.

  1. Qual é a principal diferença entre o ambiente de trabalho no Brasil e no Québec.

Essa questão da diferença pode variar de empresa para empresa pois dependerá também da cultura organizacional. Por exemplo, empresas de origem francesa são mais hierárquicas do que as norte-americanas;  empresas de marketing, tecnologia e design têm a tendência a serem mais informais. O que devemos  levar em consideração é que o Canadá é uma sociedade bastante individualista e as pessoas tendem a não dispensar muita atenção aos que não estejam diretamente relacionados a seus círculos sociais. Por essa razão, participar das discussões na hora da pausa para o café, almoço e das atividades de 5 à 7 da empresa podem favorecer a sua inserção e consequentemente aceitação no novo grupo.

  1. Como é a relação com o chefe e colegas de trabalho no ambiente de trabalho no Québec?

Mais uma vez vai depender da empresa. Conheço brasileiros que tiveram experiências maravilhosas e que se sentem mais felizes no ambiente de trabalho daqui do que no Brasil. Outros, tiveram experiências desastrosas de assédio moral. Acho que tudo passa pelo clima de trabalho da empresa, pela capacidade linguística do indivíduo (nível de francês, inglês) e da compreensão de códigos culturais. Lembrando que seus colegas muitas vezes também são imigrantes e uma harmonia entre culturas completamente diversas é exigida. Uma pessoa de uma nacionalidade específica podera ser mais aberta que outra, provocando sua empatia ou antiapatia direta. A curiosidade em compreender as particularidades de cada cultura que o cercam ajudara a evitar inumeros conflitos. Vale também destacar existem fatores de comportamentos de ordem interna que nada tem a ver com a cultura.

  1. O que deve ser evitado no ambiente de trabalho?

Vou listar os 7 pecados que não devem se cometidos.

  • Chegar atrasado: parece algo básico, mas atrasos frenquentes sem uma boa justificativa podem culminar numa demissão. Além de ser percebido como falta de motivação e implicação do empregado. Se o atraso interferir na atividade de alguém ou no atendimento de algum cliente as consequências serão ainda maiores. A expressão “l’avenir appartient à ceux qui se lèvent tôt” traduz bem esta linha de pensamento. Se o horário não lhe convém ou por alguma razão você não esteja conseguindo organizar a rotina familiar no horário de trabalho atual é importante conversar com o superior e renegociar o horário para que este acordo seja formalizado em contrato.
  • Perder o controle na frente dos colegas: os québécois são super passivos e ter um acesso de colera publicamente pode demonstrar total descontrole emocional. Respirar fundo e tentar entender o motivo da divergência e não levar para o lado pessoal é a maneira mais professional de lidar com os conflitos. Isso nao quer dizer que voce não possa sentir ou demonstrar raiva. Em muitas situações é até importante demonstrar como se sente e seu desacordo para evitar o efeito bola de neve. A diferença é poder demonstrar essse sentimento de forma estruturada, sem perder o controle para não perder a razão. Se nao se sentir preparado para a discussão naquele momento espere para argumentar no dia posterior evitando assim ações impulsivas. Afinal, como dizem por aqui… ‘La nuit porte conseil’.   
  • Ser tagarela ou piadista: na tentativa de se socializar ao máximo para ser bem aceito, muitos começam a falar demais e/ou bancar o engraçadinho. Fazer comentários dispensáveis sobre tudo e todos pode atrapalhar a concentração das pessoas e torná-lo inconveniente. Em relação as piadinhas, deve-se ter uma atenção especial a questão da língua, pois elas podem não ser compreendidas ou bem interpretadas numa sociedade diferente. No mais, faça o bom uso do seu bom GBS («gros bon sens») para evitar exageros.
  • Uso indevido de celulares: o uso inadequado de celulares está se tornando um problema nos ambientes de trabalho e traz como consequência a falta de atenção e de foco nas atividades a serem realizadas. Os brasileiros que AMAM celulares e que são constantemente tentados a saber o que se passa na nossa terrinha natal devem apenas gerenciar os horários para checar suas mensagens ou realizar postagens. Outro fator a ser analisado é o seu nivel de ansiedade, pois na maioria das vezes responder as mensagens num horário oportuno não trará grandes consequências para a sua vida pessoal.  E em certas situações, como no caso de reuniões onde o objeto de concentração deve ser outro, atender ou enviar mensagens pode passar uma péssima imagem do profissional. Se precisar atender alguma ligacao urgente, avise antes e saia da reunião discretamente.
  • Fazer horas extras: embora no Brasil isso seja normal, apreciado e até mesmo incentivado nas empresas, aqui, o efeito poderá ser inverso. Realizar horas extras que não foram solicitadas pelo superior pode demonstrar que voce não consegue gerenciar bem o seu tempo e que não é eficaz. Eles apreciam muito o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Portanto, aproveite ao máximo a possibilidade de viver «la grosse vie salle».
  • Ser prolixo: Outro fator é que costumamos explicar demais algo antes de chegar ao ponto principal e isso pode fazer as pessoas perderem a paciência em nos escutar. O mercado aqui costuma ser mais objetivo e direto.
  • Dificuldade em dizer não: Temos também a mania de querer nos comprometer com algo sem avaliar realmente a dimensão do trabalho, daí a necessidade de aprender a dizer “não” para não criar uma expectativa de algo que não poderá ser realizado. A tarefa que você se comprometeu a realizar pode passar a fazer parte da sua rotina.

Quer saber mais sobre o mercado de trabalho no Québec. Envie sua sugestão para o montrealnareal@gmail.com. E para conhecer mais sobre os serviços de Natália Russo visite www.nataliarussoconsult.com.  Até a próxima e bom trabalho.

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